segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Abra-te, mundo!
Eu não sei o que você andou fumando para dizer que precisa me ver nua logo agora. Mas entendo o seu desespero a ponto de tomar coragem para tanto. Eu estive todo esse tempo presa em uma gaiola de onde não podia mais enxergar o mundo, até que um dia ele caiu sobre a minha cabeça. Com o abalo, a catarata se rompeu e, pude então, me dar conta de tudo o que perdi.
Eu sei, não há mais tempo para palavras. O seu interesse já se foi e a atmosfera de novidade se evaporou. Pergunto-me o que restou e já não sei mais o que pensar. Sinceramente, eu nunca soube onde toda essa história iria dar. Nos vejo distantes e não sei o que esperar. De todos os amores, romances, mistérios que tenho você é o que mais gosto de imaginar. E já me é suficiente.
[Imagem: Ag.: Norma Jean Lisboa - Dir. Arte: Jorge Godinho - Cliente: BMW
em: http://www.platinumfmd.com.br/portfolio/ilustra/pages/Gaiola.html]
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Tudo bem
Eu não quero saber onde você está, a que horas volta e no que está pensando. Eu não quero seguir os seus passos e me tornar escrava desse sentimento. Eu só me interesso em ser fiel a mim mesma e o que vier depois é conseqüência de uma história trilhada com honestidade e respeito.
Eu não vou cobrar que você esteja comigo em todos os momentos, mas eu vou tornar todos os momentos que estivermos juntos os melhores. Eu não vou insistir para que venha, não vou me importar em lhe dividir com o mundo, nem me preocupar com o que possa acontecer. Eu vou sentir você o quanto puder e, se tiver que ir embora, tudo bem.
Dispenso o relatório do seu dia, problemas, afazeres, contas, trabalhos, intrigas, trânsito, colegas, chefes e fila de banco. Pouco me importa o trivial. Quero saber apenas que pensa em mim quando a luz do dia diminui e o céu muda de cor. Quero saber se o sorvete de flocos o fez pensar em mim, o cachorro na praça, a água do mar, o chuveiro queimado, a escada no muro, a porta do teatro ou a poltrona desconfortável do cinema mais charmoso da cidade. Tudo bem se você tiver que ir agora fazer outras pessoas felizes, eu não vou inventar nada para que fique mais um pouco, apenas volte quando quiser.
Eu não vou cobrar que você esteja comigo em todos os momentos, mas eu vou tornar todos os momentos que estivermos juntos os melhores. Eu não vou insistir para que venha, não vou me importar em lhe dividir com o mundo, nem me preocupar com o que possa acontecer. Eu vou sentir você o quanto puder e, se tiver que ir embora, tudo bem.
Dispenso o relatório do seu dia, problemas, afazeres, contas, trabalhos, intrigas, trânsito, colegas, chefes e fila de banco. Pouco me importa o trivial. Quero saber apenas que pensa em mim quando a luz do dia diminui e o céu muda de cor. Quero saber se o sorvete de flocos o fez pensar em mim, o cachorro na praça, a água do mar, o chuveiro queimado, a escada no muro, a porta do teatro ou a poltrona desconfortável do cinema mais charmoso da cidade. Tudo bem se você tiver que ir agora fazer outras pessoas felizes, eu não vou inventar nada para que fique mais um pouco, apenas volte quando quiser.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
O trago embolado
A imundice alheia me impregnou, me arrancou a vontade de estar entre eles, de ser um deles... Enoja-me saber a maneira como tudo se dá e recuso-me a vender-me por tão pouco. Despeço-me sem pesar em deixá-los, reconheço o que há de melhor para mim longe de todos e priorizo o meu bem-estar a longo prazo, ciente de que posso contar apenas com o meu próprio corpo. Cansado, mas ainda vivo.
A obsessão pela verdade prolonga o sufocamento. Nada desce pela garganta desde as últimas descobertas. As escolhas tomadas desde então contribuem com a asfixia. Podo-me para crescer, escondo-me para desenvolver e sufoco-me para sobreviver: me calo, me corto, me jogo e me isolo. Tudo para mover-me arrastando junto o universo. Busco a droga ideal para me devolver o ânimo, a força, o chão. O ácido que irá trazer a minha cura, devolver-me à verdade e empurrar-me à realidade. A substância perfeita para pôr fim à minha asfixia, fazer descer o meu alimento e estancar o meu sangramento.
Fuga ou enfrentamento, tanto faz. O caminho é sempre o mesmo até a luz que me cega para o fim. A curiosidade é o que me leva adiante como se arrastasse o meu corpo que ainda necessita de vida. O ar me é devolvido sem saber ainda por qual razão não me foi tirado.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Eu também cansei
Eu poderia passar horas lhe contando histórias sobre a vida daquelas pessoas. Escutei muito do que tinham a dizer e presenciei o suficiente para tirar minhas próprias conclusões a respeito do trabalho que realizam e do que almejam em cada lugar por onde passam. Mas você acredita realmente que não há interesse por trás do que fazem? Você acha mesmo que aquela mulher faz tanto por aqueles homens por acreditar na salvação de suas pobres almas e não por vaidade ou necessidade de demonstrar a superioridade em dominar o gênero que, por gerações, foi o dominante?
Ali nada é tão puro quanto parece. Você acha que não há necessidade de ser admirada, respeitada e, principalmente, reconhecida? E para os que não reconhecem é dedicado todo o calor da fúria de um mesmo coração que produz discursos de paz, solidariedade e igualdade.
Chega de clamar por igualdade! Não vê que não somos iguais? Não me impressiono mais com mobilizações que mascaram os mais repugnantes interesses. Estou farta de atitudes a que todos dizem acreditar na pureza da intenção. Sei que a culpa exarcebada por ter metido a mão no que é dos outros e ter pisado na cabeça de pessoas corretas faz com que se criem trabalhos aparentemente dignos dos mais respeitosos prêmios e menções honrosas, mas a mim não enganam mais! Sei bem onde querem chegar desde que começaram e o meu corpo fica gelado só de pensar até onde são capazes de ir para se construir boa reputação em um mundo onde a imagem vale mais do que a dignidade.
Ali nada é tão puro quanto parece. Você acha que não há necessidade de ser admirada, respeitada e, principalmente, reconhecida? E para os que não reconhecem é dedicado todo o calor da fúria de um mesmo coração que produz discursos de paz, solidariedade e igualdade.
Chega de clamar por igualdade! Não vê que não somos iguais? Não me impressiono mais com mobilizações que mascaram os mais repugnantes interesses. Estou farta de atitudes a que todos dizem acreditar na pureza da intenção. Sei que a culpa exarcebada por ter metido a mão no que é dos outros e ter pisado na cabeça de pessoas corretas faz com que se criem trabalhos aparentemente dignos dos mais respeitosos prêmios e menções honrosas, mas a mim não enganam mais! Sei bem onde querem chegar desde que começaram e o meu corpo fica gelado só de pensar até onde são capazes de ir para se construir boa reputação em um mundo onde a imagem vale mais do que a dignidade.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Meus demônios
Demônios bons são aqueles que estão soltos. Eis então à sua frente todos os meus defeitos, todas as minhas fraquezas e inseguranças. Eu não queria demonstrá-los, nem me revelar a você, mas me parece impossível viver escondida em mim. É como se eu me privasse de ter o mundo lá fora e me contentasse, em comum acordo, em ser a sua mais obediente prisioneira. Confundindo a minha imagem com a sua, não sabendo mais quais desejos e aspirações pertencem a mim e quais deles são seus.
Pequenos deslizes ganham agora proporções gigantescas e parecem determinantes. Só consigo enxergar os meus erros frente a uma enorme lupa que me assusta. Já não sei se nosso sentimento sobreviveu a todo comodismo, tédio e previsões. Já não sei como ser eu mesma desvinculada de você. Perdi o rumo e a noção do espaço que meu corpo ocupa no universo. Enquanto satisfaço todas as suas vontades como se fossem minhas, vejo que não é capaz de sonhar os meus sonhos e me acompanhar. Preciso novamente da solidão para me mostrar a hora certa de parar.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Somente trânsito interno

Recuperando a consciência percebo o erro cometido: ao invés de frear, apertei o pedal errado e acelerei batendo direto de cara no muro. Estranho perceber que você está mais presente em minha vida agora que não mais nos falamos do que quando havia palavras, sorrisos e trocas. O sinal vermelho que impedia a sua chegada até mim acabou possibilitando a sua permanência constante. Agora debilitada, sua presença tornou-se maior em meus pensamentos, em meus desejos e em minhas aflições.
Busco a fórmula para mantê-lo distante de mim, mas acabo encontrando uma maneira eficaz de assegurar que me siga em tempo integral. Confundo as marchas, troco os pedais, erro os sinais e sempre percorro o seu caminho sem perceber. Enxergo o sinal vermelho, amarelo e verde ao mesmo tempo. Faço confusão, ultrapasso pela direita e acelero quando quero frear. E freio quando quero acelerar.
Não consigo parar, não respeito a regulamentação, viro na contramão, ignoro advertências, recebo multas para chegar à via contrária a que eu queria estar. Sem saber aonde vou, dou seta para um lado e viro para o outro sem ao menos reduzir a marcha. Percebo que escureceu e, ao tentar ligar os faróis, descubro o meu estado de pisca-alerta; sempre atenta somente aos seus sinais. Toda confusão é advertência da paixão na rota de fuga da estrada do meu coração.
Todas as músicas, sons e luzes me confundem. Já não tenho a mesma visibilidade de antes. O vejo no horizonte, tento frear, mas é inevitável, mais uma vez bato direto de cara no muro.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
O outro lado

Não serei eu a dizer-te o valor que tenho, se não és capaz de reconhecê-lo. Não me parece que possuas tão pouco discernimento a ponto de não pensar nas conseqüências de tuas próprias palavras. E não creio que haja sentimento suficiente capaz de fazer com que ofensas não gerem mágoas.
A liberdade não é dada para ser invadida. A relação não é construída já pensando em seu fim. Assim como o respeito a uma pessoa não tem de ser pedido. E se não sabes disso ainda hoje, não ficarei a esperar pelo que virá.
O que falta em mim é justamente o que tens em excesso: confiança. E se te aproveitas do que não sei para te auto-promoveres, talvez já não haja razão para que eu esteja aqui. Tu não estás preparado e não sabes valorizar o que tens. Tampouco pensas no que preciso, além do óbvio, é claro.
Sabes que tenho muito a aprender, mas não será da maneira como queres. Isso certamente não será. Falta-te educação, nada mais. E que coincidência; é mesmo o que tenho de sobra!
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
O fim que antecede o início

Escorri inteira pelo ralo em apenas cinco segundos. Não suportei o ardor da realidade, minhas orelhas derreteram-se com o calor do fogo tão próximo. Fugi correndo. Fugi de ti, das novidades, do crescimento e do conhecimento. Fugi de medo.
Apavorei-me ao saber que tu eras real e me cobrarias mais do que palavras... Lutei para sustentar-me sobre minhas próprias pernas, não encontrei remédio e acabei por regurgitar tudo o que havia em meu estômago. Fiz força até me livrar de ti inteiro.
Com a descarga se foram tuas palavras, teus olhares, tuas imagens, tuas dúvidas e teus interesses (estes mesmos – tão meus). Acordei livre do incômodo, livre da dor e livre de ti. O esgoto levará ao rio tudo o que houve entre nós, caindo no mar, que ora irá te banhar com a saudade do que não existiu, meu amor. Eu pedi: aceitas esta dor, é tudo que tenho a te dar.
Então me veio a tua imagem nua, assim como és. Máscaras ao chão e a ameaça do encanto perdido. A proposta do encontro e o momento errado para nós. Vais tu, vais para longe de mim. Vais tu e levas a lembrança de mim, com saudades do que não vivi. Vais e um dia me contas como é viver do que não foi. Vais que será fácil esquecer o que nunca existiu. Leva contigo esta crença no que não se concretizou e avisa-me o que não restou. Vais e leva-te para bem longe de mim.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Repolho e o cachimbo

Desde pequena moro no mesmo bairro e sempre conheci pouco a vizinhança. Apesar de saber quem é quem, fiz raras amizades por aqui. Com a molecada da minha idade tive mais contato e, na época de escola, conheci um garoto a que todos chamavam de Repolho. Morava com os avós em uma casa simpática e estudava, diferente de mim, em um colégio particular no bairro vizinho. Levava uma vidinha normal, entre amigos, namoradas e família.
Passaram-se anos até que soube que o rapaz havia pirado. Mendigava pelas ruas a fim de sustentar o vício. Quando me abordou pedindo um trocado, notei que as pontas dos dedos denunciavam sua preferência e o sentenciavam. Morar ao lado de uma grande favela tem dessas coisas: a gente aprende a pular os corpos estendidos no chão e passa a achar normal o uso de drogas sempre por perto. A merda só conquista preocupação quando atinge alguém conhecido. Só assim a discussão do tema atravessou o asfalto e veio à tona no bairro.
A Pedreira Prado Lopes é uma das favelas mais antigas de Belo Horizonte, famosa por ter inserido o crack ao cenário do tráfico mineiro e fica bem à frente do meu bairro. Desde muito tempo percebo os cachimbos sendo acesos quando pego o atalho que passa pela avenida principal da favela para chegar em casa à noite. São luzinhas que revelam rostos jovens afundados na escuridão do vício. Reportagens já tentaram denunciar a crackolândia, mas nada foi capaz de deter a venda e o consumo da droga.
Na época da faculdade, fazia o percurso a pé e tinha que atravessar o São Cristóvão toda manhã. Mesmo estando separada da Pedreira pela Avenida Antônio Carlos, era possível notar a enorme quantidade de meninos e meninas estirados no mesmo chão que ratos e lixo também ocupavam. O efeito da droga era tão grande que, ao voltar para casa, ao meio dia e com sol a pino, eles ainda estavam lá sem ter idéia do correr das horas.
Preocupa-me pensar no futuro da região, pois não há Linha Verde, Vermelha ou Amarela que abra os olhos de governantes e cidadãos para o que se passa aqui todas as noites. Se Belo Horizonte conquista hoje a média de trinta mortos por fim de semana, isso só ganha visibilidade quando acomete jovens de regiões nobres da cidade que se envolvem com a violência por diversão e gosto pelo risco e não por se tratar da difícil realidade vivida na favela por toda uma vida. E o exercício da cidadania só começa a ser praticado quando a mãe de um deles sente que o problema pode ultrapassar as fronteiras que separam classes delimitadas por zona norte e zona sul e passa a atingir lares de “gente honesta”, como se a favela não estivesse, também, repleta deles.
O tema igualdade social ainda está longe de frear o tráfico praticado por aqui, pois as pessoas desconhecem a força que possuem em mãos para combatê-lo. E mais uma noite o movimento do fechar dos olhos é feito em BH enquanto o sangue não escorre pelo lado de cá e o tiroteio continua a só ganhar destaque na televisão quando é parte integrante do eixo Rio-São Paulo.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Sobre sapos e formigas

De repente, eu me sinto culpada por não aceitar desaforos de um velho ranzinza e de mal com a vida. Sinto que a minha tolerância deveria ser infinita ao pensar que se trata apenas do início da minha carreira e que é normal colecionar sapos no estômago até se gerar um câncer ou se conseguir um emprego melhor.
Sinto que não estou cumprindo meu papel social ao não me manter trancada durante dez horas do meu dia em uma instituição privada trabalhando duro para que enriqueçam logo através da minha incessante produção.
Sinto que deixei de lado as minhas obrigações de profissional formada e cidadã adulta ao não conseguir pagar minhas contas e questionar o desrespeito ao piso salarial de minha classe. E não importa o quão qualificada eu seja porque eu estarei escondida o bastante atrás de muito trabalho para que seja possível enxergar novas possibilidades.
Não penso mais em contrariar pessoas tão superiores a mim em quesitos que, habitualmente, não adquirimos na faculdade, como arrogância, prepotência e amizades influentes. Não busco mais esse idealismo de sarjeta, livre de esquemas e fiel à ética e ao bom senso, pois o que resta a pessoas como eu é tão somente abaixar a cabeça e bater o cartão.
Sinto que, por ora, não há solução diferente de me conformar com a estúpida realidade e me submeter àquilo que não concordo, me juntando, enfim, à massa de operárias que dedicam total respeito à rainha.
***
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Sinto que não estou cumprindo meu papel social ao não me manter trancada durante dez horas do meu dia em uma instituição privada trabalhando duro para que enriqueçam logo através da minha incessante produção.
Sinto que deixei de lado as minhas obrigações de profissional formada e cidadã adulta ao não conseguir pagar minhas contas e questionar o desrespeito ao piso salarial de minha classe. E não importa o quão qualificada eu seja porque eu estarei escondida o bastante atrás de muito trabalho para que seja possível enxergar novas possibilidades.
Não penso mais em contrariar pessoas tão superiores a mim em quesitos que, habitualmente, não adquirimos na faculdade, como arrogância, prepotência e amizades influentes. Não busco mais esse idealismo de sarjeta, livre de esquemas e fiel à ética e ao bom senso, pois o que resta a pessoas como eu é tão somente abaixar a cabeça e bater o cartão.
Sinto que, por ora, não há solução diferente de me conformar com a estúpida realidade e me submeter àquilo que não concordo, me juntando, enfim, à massa de operárias que dedicam total respeito à rainha.
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