terça-feira, 21 de junho de 2016

Nunca me passou



Dos livros que li e dos amores que vivi eu pouco lhe falei. Amar você era como ler Garcia Marquez. Eu não sabia se o calor que eu sentia ao olhar seus olhos tão pequenininhos era amor ou apenas malária. Febre, suor e confusão mental a cada vez que você se aproximava. Crises de ansiedade a cada vez que você partia. O que eu tinha nenhum doutor foi capaz de diagnosticar e, embora todos os exames tenham sido negativos, você nunca me passou.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Em pedaços

Você preparou a casa toda. Trocou o carro esporte por um maior. Me falou de família, amigos e papéis. Preparou tudo para me receber. Eu não precisava de nada disso. Eu apenas queria precisar. Seus afetos, suas paisagens, suas palavras, suas imagens, seus valores, suas impressões. Não sei explicar bem porque ainda não foi digerido. Veja bem: mesmo depois de tanto tempo, ainda não entendi quando foi que nasceu a sua desconfiança, o seu ciúme, a sua possessividade e a sua ira. Eu não entendo como alguém que deu tanto possa se tornar tão egoísta. Eu não entendo de onde veio o alto tom da sua voz ou a minha incontrolável vontade de ir embora. Aversão a tudo que pensávamos estar construindo juntos. Não sei bem quando comecei a fazer as malas. Mas garanto que cheguei até aqui com a bagagem mais positiva que pude carregar. E, mesmo assim, em pedaços.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Carta a um [des]amor

Meu querido desamor,

Foi a liberdade que você me concedeu, que me fez ir além. Para descobrir quem eu era, o que queria e do que seria capaz, precisei me desvincular de tudo aquilo que era tão certo pra mim.
O nosso amor nunca deixou de existir, se transformou nesse querer bem infinito, nesse sentimento de referência para todas as outras paixões que surgiriam e nessa total incapacidade de encontrar algo parecido nessa Terra.
Nós éramos únicos e, juntos, insuperáveis. No coração ficou a lembrança da generosidade, da cumplicidade e da sintonia que nunca nos faltou. Ficou a gratidão pelo que me ensinou e por tudo que vivemos juntos. Hoje só posso desejar que você encontre amor por onde for.

Com carinho, 
                                        C.


Cristina,

alça o seu voo, liberte-se dessas amarras e desconstrói o seu ser. Vai que, no fundo, você nunca precisou de mim. Vai descobrir o que eu sempre lhe disse: você é bem capaz sozinha. Vai e me deixa as boas lembranças do que vivemos, os lugares que frequentamos e todos os amigos em comum que insistem em me pedir notícias suas. Vai e me deixa com a sua falta, o som da sua risada, os planos que fizemos, seus presentes pela casa, suas fotos na parede e suas ligações inesperadas. Vai viver o sonho que é só seu. Vai que, daqui em diante, eu já não consigo ser mais seu companheiro. Nossas vidas vão seguir rumos diferentes e eu não vou mais me fazer presente. Ainda assim, conte sempre comigo para o que precisar. 

Com amor,
D.


[Cartas produzidas no curso Go, Writers para amadores. Cartas de amor e desamorda querida Cris Lisboa, que me devolveu animo e inspiração para continuar escrevendo].