quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Das coisas que você enxergou em mim

Eu queria não ter sido tocada por tudo isso que você diz, mas a minha vontade é em vão. Eu sigo seus chamados. Eu fico perdida nos seus passos. Eu me acho nos seus espaços. Eu abro a geladeira e você está lá. Nas fotos, o seu sorriso. Na memória, o seu jeito de falar. Nos escritos, a poesia do meu olhar. Eu percebi que o fato de não lhe escrever não lhe afasta dos meus pensamentos. Descobri que o que você despertou em mim não se abafa tão fácil e é inútil tentar não enxergar o seu sorriso, lembrar sua voz, sentir seu toque.  

Eu vejo o seu rosto em todos os corpos. Eu lhe vejo pela cidade que não é sua. O que não vivemos ganha cores, movimentos, enredo e trilha sonora. Ganha vida própria e essa vida não tem limites. Passo horas em uma realidade que nunca existiu, sinto falta do que não vivemos juntos e vontade de viver o que não nos foi permitido. Eu quero lhe escrever, mas não sei o que dizer. Eu quero lhe ver, mas não tenho um porquê. Eu quero mudar minha vida e estar junto a você por pequenos momentos que tragam algum sentido a esse querer.  

Que se dane a paz e a tranqüilidade que você tanto insiste em me devolver. Eu gosto mesmo é do turbilhão que você trouxe à minha vida em questionamentos e dúvidas sobre tudo aquilo que sempre foi tão certo pra mim, que me fizeram enxergar o mundo que nunca vi e a ter vontades que nunca me permiti. Eu já me apeguei e não consigo ser indiferente à sua busca. Eu não consigo mais dormir, eu penso em todas as possibilidades, eu penso no futuro e em um passado diferente do que foi. Eu lhe busco e me encontro.  

Quero mesmo é que você volte e desfaça o que já arrumei e me cobre atitudes adultas como encarar os fatos de frente e respeitar os meus desejos. Quero que me diga quando vem e que não aceita não me rever. E não haverá Pessoa, Almodóvar ou Neruda que sacie o que ainda temos a viver.  

Quero a permissão para reencontrar a sua risada, ouvir sua voz e rever seus olhos sobre mim enxergando tudo aquilo que ninguém mais é capaz de ver. Quero o seu carinho, o seu beijo, o seu cheiro e quero mais ainda a sua visão de mundo. Eu quero acreditar que sou aquilo que você vê em mim e ser feliz assim. Mas tudo que me resta fazer é guardar o que sinto e esperar por um pretexto que me permita dizer aquilo que eu ainda não soube entender.

(Publiquei esse texto no meu antigo blog em 26 de agosto de 2007, data em que o redigi)