terça-feira, 19 de junho de 2007

Bonina, marrom ou grená?


Já havia percebido que conviver com esses seres que não sabem diferenciar bonina de marrom, que fazem xixi em qualquer lugar e que falam o que querem e na hora que querem não seria fácil. Desde muito cedo notou que teria problemas com eles. Seu futuro não foi diferente das suas previsões.

Não havia um tipo que gostasse mais. Gostava de todos. E em cada época se apegava a um. Gostou dos mais novos e cheios de novidades. Dos mais velhos e mais contidos. Dos altos, baixos, morenos, loiros, magros, fortes, ... Gostou dos amigos de escola, colegas de trabalho, professores, desconhecidos, vizinhos, amigos dos amigos, primos das amigas ... Até que um dia se deu conta que não conseguia ficar por muito tempo com nenhum deles. Por mais lindos que fossem ou por mais educados e inteligentes que parecessem ser, se sentia sufocada, com seus passos vigiados e o que é pior: sempre se via atraída por outra pessoa fora do relacionamento.

Muitas vezes, preferiu ficar sozinha. Pensava em um modo de resolver aquilo que, para todos, era o seu problema. As pessoas lhe cobravam isso, embora parecesse algo impossível de se cumprir, não só para ela como para muita gente que conhecia. Ela sabia que seus vizinhos não eram fiéis às esposas, tampouco seus colegas de trabalho.

Ao seu redor, sempre ouviu longas histórias sobre traição e nunca foi capaz de trair. Nem mesmo completamente apaixonada por um homem comprometido conseguiu dar continuidade ao relacionamento. Chegou ao ponto de preocupar-se mais com a mulher que o esperava em casa, do que com a sua própria paixão. Quase enlouquecera. Vivia todos os dias em Crime e Castigo, Closer e Match Point. Teve sua paz roubada.

Não desistiu de tentar permanecer com alguém em tentativas que contrariavam a sua natureza. Se apaixonar era fácil, mas se manter apaixonada por um só, suportar a intimidade no dia-a-dia e resistir até o final era o grande desafio.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Nós estamos descontroladas


Nós somos todas iguais. Usamos o mesmo tom de loiro, corte de cabelo com franjinha para a direita e o aspecto que só a chapinha é capaz de proporcionar. As roupas que vestimos possuem o mesmo tipo de estampado e parecem ter sido compradas na mesma loja; são bastante decotadas e extremamente curtas, apropriadas para o verão no litoral. Mesmo que não seja o caso: já é outono e estamos em uma região montanhosa.

Nós conseguimos enquadrar busto e rostinho em uma só fotografia, na construção de um perfil atraente para qualquer mortal que possua sentidos obedientes aos padrões contemporâneos.

Nossas bochechas são bem rosadas e os lábios molhados. Nos posicionamos como se estivéssemos em uma vitrine para a livre escolha dos poucos homens solteiros do recinto. Somos produtos de uma sociedade que nos fez acreditar que seres do sexo masculino estão escassos no mercado. E, nessa feira, vale tudo para chamar a atenção: gargalhadas escandalosas, dancinhas ensaiadas, caras e bocas como na novela das oito ao som das frenéticas batidas eletrônicas.

Fazemos um malabarismo absurdo para parecermos seguras. São drinks e cigarros sem fim em busca de auto-afirmação. Ostentamos bolsas, roupas e acessórios da moda como troféus de desejos possíveis. Tudo que fazemos soa artificial. Somos seres desesperados por uma transa, um beijo na boca ou um pouco de atenção. Aceitamos todo tipo suado, que chegue pegando pelo braço e falando qualquer merda que leve logo ao que interessa: ter um macho ao nosso lado, que amenize cobranças alheias e internas. Não nos cansamos do velho discurso de que os bons e bonitos já estão comprometidos e nos submetemos aos que nos escolhem, sejam eles feios, mal-educados, casados ou boiolas.

Enquanto acreditamos na escassez do produto masculino e nos contentamos com a lei do “o que vier é lucro”, outras poucas se deliciam do lado de fora de um mercado inexistente com a presença de histórias, romances, sensações e até mesmo homens que nunca faltaram em mundo algum, pois acreditam que cada um vê o que quer. Barangas!

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Da fuga que eu mesma planejei


Eu sei que você não deve estar entendendo nada. Há anos deixei de atender aos seus telefonemas, tão insistentes, e hoje estou aqui, bem onde teria certeza que lhe encontraria. E não adianta tentar disfarçar meu nervosismo. Eu simplesmente não consigo falar nada que faça sentindo, mal consigo olhar em seus olhos e, em meu rosto, fica esse sorriso nervoso.

Sei que lhe fiz sentir culpado e confuso, mas eu não sei lidar com essas coisas. E, nesses anos todos, eu ainda não aprendi. Não sei fingir que não houve nada entre a gente, não sei me comportar socialmente, disfarçar as evidências e agir como uma mera conhecida sua. Não consigo me mexer recebendo o seu toque e creio que, dentre pouco, perderei também a capacidade de respirar. A verdade é que eu não sei atuar e, embora eu esteja aqui hoje, acredite, eu preferiria não ter que vê-lo mais.

Foram anos me condenando por uma traição que não cometi. Foram anos me questionando como tudo chegou a tal ponto de envolvimento. E agora, à sua frente, vejo que não posso julgá-lo tendo como base apenas tão poucos fragmentos da sua história de vida. Talvez eu tenha vindo aqui hoje para me conceder o perdão e compreender que só haveria traição se eu permanecesse com você. Como fazê-lo entender que eu era, e ainda sou, menina demais para continuar? Como dizer que eu não suportaria a pressão? Como explicar que fugir foi o mais digno que pude fazer?