segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Instalado



Instalou-se a inutilidade, a inatividade. Como quando Gregor sofreu a metamorfose. Eu leio na minha língua, leio na sua e, na dúvida, assisto a todos os telejornais. Eu me sinto burra, tenho sede de informação. Então me acompanham Neruda, Dostoievski, Pessoa, Espanca e quem mais quiser. Felini, Polanski, Moretti. Mas não muda nada, eu continuo inútil. E a insônia permanece porque, afinal, tanto faz pensar de dia ou de noite, quando o que muda é somente a iluminação. Não escrevo, somente o que me expõe em 140 caracteres, mesmo porque, as pessoas não querem saber muito. E eu parei de me importar com elas. Essa obrigação eu já não mais carrego. E aí a minha psicóloga diria que se inicia o meu processo de aceitação. Aceito então. Aceito assim. Um dia serei como elas, trabalharei como elas, me vestirei como elas e farei tudo aquilo que deve ser feito. Daqui a pouco vai ser assim, ah vai. Me diz se vale a pena então, esse tempo na solidão. 

Eu achei que já estava bem grandinha para esse tipo de diversão, ou muito nova para uma vida tão conformada. Eu não estou bem, e você? As pessoas falam sem escutar, compram sem pensar, se arruinam sem perceber. Mas depois se exibem felizes na vida que podem pagar, adquirir, ostentar... Tudo isso porque não sabem mais como sentir. O meu problema é justamente ser ao contrário, não me enquadrar, não pertencer, não ter o que conversar e não me importar. Dos assuntos pelos quais me interesso, ninguém mais quer saber. Me isolo, me calo, me escondo, não transmito o que elas não podem entender. Estou precisando saber se ainda sou capaz de me comunicar com o mundo, se existe alguém igual a mim por aí, preciso de um bom motivo para acordar bem cedo e fazer todas as coisas que precisam ser feitas. Sentir que a minha cabeça não pensa à toa, não desperdiça tempo, me faz ganhar algo mesmo que raramente. Preciso que acreditem, mesmo sabendo que a primeira a acreditar deve ser eu mesma. Mas aí eu adio, decido dormir mais um pouco que passa. Reclamo da sorte e ouço vozes. Faz alguma coisa pra ocupar essa cabeça, minha filha. Enche o seu dia de afazeres. Leva a vida como todo mundo, assiste televisão para ter assunto, dá uma olhadinha na tabela do campeonato, caso precise de argumento. 

Decido partir, aqui não é lugar pra mim.