terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Reencontro com a solidão

 
Foram muitas as noites que passamos sozinhos, cada um de um lado da cidade. Ele sem saber que eu pensava nele. Eu sem saber que ele me procurava em cada parada do metrô. Foi mais duro e solitário quando o inverno chegou e a cidade ficou ainda mais cinza. A cada dia que passava sua imagem sumia da minha memoria. Busquei por fotos, contatos com pessoas que pudessem me ajudar a reencontra-lo, pistas de onde pudesse acha-lo, mas a vida não facilitou. Gritou bem alto pra mim que eu estava condenada a viver na bolha que eu mesma criei.

Se agora me vejo sozinha assim, foi porque eu mesma escolhi. Me isolei distante de qualquer comunicação com a felicidade. Desejei não viver mais momentos felizes ao lado de alguém. Tratei de esquece-lo. E quando estava finalmente me livrando da obsessão e das lembranças, a vida decidiu que era hora de nos reencontrarmos.

A alegria no olhar, o abraço inesperado e sem jeito e a desenvoltura na conversa como nunca havia ocorrido antes. A confiança ao ouvir “eu te procurei em todos os lugares”. A certeza de que o tempo trouxe amadurecimento. Éramos os mesmos e, ao mesmo tempo, tão diferentes. A solidão tem dessas coisas, nos faz entender o que antes não havia sentido, nos faz ter calma diante do inesperado e nos faz, mais uma vez e sem ao menos nos darmos conta, deixar a oportunidade passar novamente, já que estamos tao habituados à sua única companhia.

Parece que o ciclo então recomeçou e eu não posso acreditar que tudo esteja se repetindo. E a vida grita com ainda mais força exigindo uma atitude quando estou mais distraída, sem me dar sequer oportunidade de resposta, me forçando a aprender que é preciso coragem diante de oportunidades que podem ser únicas.

Ele sumiu de novo e nós nos perdemos nessa cidade que sabe ser grande quando decide separar pessoas por detrás de sua rotina caótica. Nos perdemos em nossa vontade de nos reencontrarmos. Nos perdemos sem previsão nem carta geográfica. E talvez eu encontre então um grupo de inquietos como eu que aceite discutir madrugada adentro ao som de qualquer jazz antigo, bebendo vinho barato em um pub da cidade que dorme. Mas, enquanto isso, eu me entrego à uma realidade totalmente fictícia, em que não é possível encontrar nada que seja verdadeiro, intenso ou profundo mais do que dois palmos.

Sigo assim sem seu olhar, suas perguntas, seu sorriso. E me contento em te aceitar quando a vida julgar oportuno. E me revolto por ela me tratar com tamanho descaso e contesto a imposição de um tempo que não condiz com a minha vontade de, enfim, te reencontrar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A falta



É melhor a gente não se falar mais. Foi assim que decidi milhares de vezes. Mas a saudade, as lembranças e a falta não me deixam cumprir a proposta que foi feita por mim mesma. O tempo prometeu curar, aliviar, tornar as coisas mais leves. E, vez por outra, até chego a acreditar que é possìvel nao pensar em meio à minha nova rotina, à minha nova vida, às minhas novas ocupações. Pura ilusão achar que seria fácil, achar que duraria pouco, achar que a dor não seria fiel. 
A solidão nao é ocasional, nem poderia ser. É consequência exposta do que passa aqui dentro. Do espaço que não está livre, que não está pronto para ser ocupado, que não admite que um dia algo possa ser tão bom como já foi. Não existe promessa para retomar o que já se foi. E, à parte isso tudo, vem a raiva. Raiva da vida por ser como é mas, principalmente, raiva de você, por nao ter percebido a tempo que eu partiria. Raiva por você ter admitido que tudo acontecesse como aconteceu. Raiva por ter lhe avisado tantas vezes e você nao ter me escutado. 
Chego a achar bom que tudo tenha esse peso. Chego a desejar talvez que tudo se torne ainda mais pesado. Quem sabe assim você aprende, quem sabe assim você mude, quem sabe assim ainda exista uma maneira de tudo ser de novo como foi um dia. 

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O cheiro de absinto no corredor. o passaro que canta sempre a mesma cançao sem jamais diversificar, o nascer preguiçoso de um sabado cinza la fora. A mesma atitude habitual de nao saber sustentar as proprias mentiras. A maquiagem escorrida no espelho, o olhar alegre e ainda cansado, a melodia que nao para de se repetir em minha mente. As semanas se passam assim, sem aprender com os erros, sem tempo para refletir, sem espaço para me desenvolver, produzir, raciocinar, enxergar, absosrver. 

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Aqui já são quase 3h da manhã, mas não quero ir dormir sem lhe escrever. Hoje eu sonhei com você, qualquer coisa à toa, mas acordei chorando. Sei que é uma dor que tem ameaçado vir, mas não acha espaço em meio a tantas mudanças. O choro me vem quando a casa está cheia e eu quero ficar trancada no banheiro, a lembrança vem nas fotos ao lado da cama, nos presentes que você me deu e estão aqui comigo, nos planos que fizemos e nos lugares pelos quais passamos. Não adianta mudar o caminho, rasgar as fotos, me ocupar com outras coisas, você esta em todo lugar. 

A ruptura que eu previa há tantos meses era pra evitar o prolongamento desse sofrimento presente comigo até hoje. Já me bastaria, mas ainda não bastou. Ainda falta chorar, sofrer, relembrar para esquecer. tentar entender e amadurecer a idéia do quanto nossas vidas mudaram. E não faço idéia de que sentido faz eu lhe dizer isso ou qualquer outra coisa se tudo será como é ao menos por agora. 

Mas eu precisava dizer. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Para o tempo

Não era esse o final para a minha história. Sonhei que não havia acontecido, acordei e era real. A febre, a dor, o sentimento engasgado, o choro abafado. A alucinação incessante, o escape que não possuo. A tentativa de me apoiar ao momento, às coisas que não são minhas, à vida que não reconheço, às pessoas que não admiro. A dor veio mesmo para ficar, bater, doer, latejar. A surpresa que me acomete com a calma que não me é suficiente. A pressa pela definição, o ciúme pelo não dito. 

Ficam os cães sem dono, o registrar do tempo, a incerteza do futuro, a ausência sofrida, a casa vazia, o projeto no papel, a garganta inflamada, a neve a cair, o dia cinza lá fora, a chuva a molhar, a descompasso no caminhar. Fico eu a olhar o seu passar.