
Voltava sempre à casa com a sensação de não ter feito o que queria. Anotava os seus desejos não realizados em pequenos pedaços de papéis e os guardava em uma caixa de sapatos.
Rapidamente, viu a caixa se encher. Eram beijos não dados, carinhos não demonstrados, palavras não ditas, mágoas guardadas e grosserias não retribuídas. Cultivava cada um daqueles pedaços de papéis, quase sempre, pelos mesmos motivos: orgulho, charme e convenções socias.
Soube que não poderia mais conviver com aquela caixa quando percebeu que aquilo tudo fazia parte do que seria: uma pessoa triste e amarga. E para se livrar daquele peso teria de priorizar as suas vontades.
Colocou-se a ler cada uma das ações que não realizou. Ordenou-as de acordo com sua importância. Sabia que as coisas que mais deveria ter feito eram diretamente proporcionais às horas de sono perdidas. Jurou a si mesma que não mais voltaria à casa sem que resolvesse as suas pendências e pudesse dormir em paz.
Começou aos poucos, apenas não deixando que outras pessoas lhe magoassem. Com o tempo, ganhou forças para dar respostas imediatas e aprendeu a reconhecer o que queria para si a tempo de não perder as oportunidades que a vida lhe oferecia.
Rasgava cada um daqueles papéis à medida que realizava os seus desejos. Soube aceitar aqueles que não poderiam mais se concretizar. Deixou que o vento os levasse embora e o viu tirar-lhe o peso armazenado. Assim, conheceu o respeito próprio e as noites bem dormidas lhe fizeram companhia.


