segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Somente trânsito interno


Recuperando a consciência percebo o erro cometido: ao invés de frear, apertei o pedal errado e acelerei batendo direto de cara no muro. Estranho perceber que você está mais presente em minha vida agora que não mais nos falamos do que quando havia palavras, sorrisos e trocas. O sinal vermelho que impedia a sua chegada até mim acabou possibilitando a sua permanência constante. Agora debilitada, sua presença tornou-se maior em meus pensamentos, em meus desejos e em minhas aflições.

Busco a fórmula para mantê-lo distante de mim, mas acabo encontrando uma maneira eficaz de assegurar que me siga em tempo integral. Confundo as marchas, troco os pedais, erro os sinais e sempre percorro o seu caminho sem perceber. Enxergo o sinal vermelho, amarelo e verde ao mesmo tempo. Faço confusão, ultrapasso pela direita e acelero quando quero frear. E freio quando quero acelerar.

Não consigo parar, não respeito a regulamentação, viro na contramão, ignoro advertências, recebo multas para chegar à via contrária a que eu queria estar. Sem saber aonde vou, dou seta para um lado e viro para o outro sem ao menos reduzir a marcha. Percebo que escureceu e, ao tentar ligar os faróis, descubro o meu estado de pisca-alerta; sempre atenta somente aos seus sinais. Toda confusão é advertência da paixão na rota de fuga da estrada do meu coração.

Todas as músicas, sons e luzes me confundem. Já não tenho a mesma visibilidade de antes. O vejo no horizonte, tento frear, mas é inevitável, mais uma vez bato direto de cara no muro.

domingo, 9 de setembro de 2007

O outro lado


Não serei eu a dizer-te o valor que tenho, se não és capaz de reconhecê-lo. Não me parece que possuas tão pouco discernimento a ponto de não pensar nas conseqüências de tuas próprias palavras. E não creio que haja sentimento suficiente capaz de fazer com que ofensas não gerem mágoas.

A liberdade não é dada para ser invadida. A relação não é construída já pensando em seu fim. Assim como o respeito a uma pessoa não tem de ser pedido. E se não sabes disso ainda hoje, não ficarei a esperar pelo que virá.

O que falta em mim é justamente o que tens em excesso: confiança. E se te aproveitas do que não sei para te auto-promoveres, talvez já não haja razão para que eu esteja aqui. Tu não estás preparado e não sabes valorizar o que tens. Tampouco pensas no que preciso, além do óbvio, é claro.

Sabes que tenho muito a aprender, mas não será da maneira como queres. Isso certamente não será. Falta-te educação, nada mais. E que coincidência; é mesmo o que tenho de sobra!

domingo, 2 de setembro de 2007

O fim que antecede o início


Escorri inteira pelo ralo em apenas cinco segundos. Não suportei o ardor da realidade, minhas orelhas derreteram-se com o calor do fogo tão próximo. Fugi correndo. Fugi de ti, das novidades, do crescimento e do conhecimento. Fugi de medo.

Apavorei-me ao saber que tu eras real e me cobrarias mais do que palavras... Lutei para sustentar-me sobre minhas próprias pernas, não encontrei remédio e acabei por regurgitar tudo o que havia em meu estômago. Fiz força até me livrar de ti inteiro.

Com a descarga se foram tuas palavras, teus olhares, tuas imagens, tuas dúvidas e teus interesses (estes mesmos – tão meus). Acordei livre do incômodo, livre da dor e livre de ti. O esgoto levará ao rio tudo o que houve entre nós, caindo no mar, que ora irá te banhar com a saudade do que não existiu, meu amor. Eu pedi: aceitas esta dor, é tudo que tenho a te dar.

Então me veio a tua imagem nua, assim como és. Máscaras ao chão e a ameaça do encanto perdido. A proposta do encontro e o momento errado para nós. Vais tu, vais para longe de mim. Vais tu e levas a lembrança de mim, com saudades do que não vivi. Vais e um dia me contas como é viver do que não foi. Vais que será fácil esquecer o que nunca existiu. Leva contigo esta crença no que não se concretizou e avisa-me o que não restou. Vais e leva-te para bem longe de mim.

sábado, 11 de agosto de 2007

Inútil distância


Eu percebi que o fato de não lhe escrever não lhe afasta dos meus pensamentos. Descobri que o que você despertou em mim não se abafa assim tão fácil e é inútil tentar não enxergar o seu sorriso, lembrar sua voz, sentir seu toque. Eu vejo o seu rosto em todos os corpos. Eu lhe vejo pela cidade que não é sua.

O que não vivemos ganha cores, movimentos, enredo e trilha sonora. Ganha vida própria e essa vida não tem limites. Passo horas em uma realidade que nunca existiu, sinto falta do que não vivemos juntos e vontade de viver o que não nos foi permitido. Eu quero lhe escrever, mas não sei o que dizer. Eu quero lhe ver, mas não tenho um porquê. Eu quero mudar minha vida e estar junto a você por pequenos momentos que tragam algum sentido a esse querer.

Mas tudo que me resta fazer é guardar o que sinto e esperar por um pretexto que me permita dizer aquilo que ainda eu não soube entender.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Repolho e o cachimbo


Desde pequena moro no mesmo bairro e sempre conheci pouco a vizinhança. Apesar de saber quem é quem, fiz raras amizades por aqui. Com a molecada da minha idade tive mais contato e, na época de escola, conheci um garoto a que todos chamavam de Repolho. Morava com os avós em uma casa simpática e estudava, diferente de mim, em um colégio particular no bairro vizinho. Levava uma vidinha normal, entre amigos, namoradas e família.

Passaram-se anos até que soube que o rapaz havia pirado. Mendigava pelas ruas a fim de sustentar o vício. Quando me abordou pedindo um trocado, notei que as pontas dos dedos denunciavam sua preferência e o sentenciavam. Morar ao lado de uma grande favela tem dessas coisas: a gente aprende a pular os corpos estendidos no chão e passa a achar normal o uso de drogas sempre por perto. A merda só conquista preocupação quando atinge alguém conhecido. Só assim a discussão do tema atravessou o asfalto e veio à tona no bairro.

A Pedreira Prado Lopes é uma das favelas mais antigas de Belo Horizonte, famosa por ter inserido o crack ao cenário do tráfico mineiro e fica bem à frente do meu bairro. Desde muito tempo percebo os cachimbos sendo acesos quando pego o atalho que passa pela avenida principal da favela para chegar em casa à noite. São luzinhas que revelam rostos jovens afundados na escuridão do vício. Reportagens já tentaram denunciar a crackolândia, mas nada foi capaz de deter a venda e o consumo da droga.

Na época da faculdade, fazia o percurso a pé e tinha que atravessar o São Cristóvão toda manhã. Mesmo estando separada da Pedreira pela Avenida Antônio Carlos, era possível notar a enorme quantidade de meninos e meninas estirados no mesmo chão que ratos e lixo também ocupavam. O efeito da droga era tão grande que, ao voltar para casa, ao meio dia e com sol a pino, eles ainda estavam lá sem ter idéia do correr das horas.

Preocupa-me pensar no futuro da região, pois não há Linha Verde, Vermelha ou Amarela que abra os olhos de governantes e cidadãos para o que se passa aqui todas as noites. Se Belo Horizonte conquista hoje a média de trinta mortos por fim de semana, isso só ganha visibilidade quando acomete jovens de regiões nobres da cidade que se envolvem com a violência por diversão e gosto pelo risco e não por se tratar da difícil realidade vivida na favela por toda uma vida. E o exercício da cidadania só começa a ser praticado quando a mãe de um deles sente que o problema pode ultrapassar as fronteiras que separam classes delimitadas por zona norte e zona sul e passa a atingir lares de “gente honesta”, como se a favela não estivesse, também, repleta deles.

O tema igualdade social ainda está longe de frear o tráfico praticado por aqui, pois as pessoas desconhecem a força que possuem em mãos para combatê-lo. E mais uma noite o movimento do fechar dos olhos é feito em BH enquanto o sangue não escorre pelo lado de cá e o tiroteio continua a só ganhar destaque na televisão quando é parte integrante do eixo Rio-São Paulo.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Das coisas que você viu em mim


Eu queria não ter sido tocada por tudo isso que você diz, mas a minha vontade é em vão. Eu sigo aos seus chamados. Eu fico perdida nos seus passos. Eu me acho nos seus espaços. Eu abro o e-mail e você está lá. Nas fotos, o seu sorriso. Na memória, o seu jeito de falar. Nos escritos, a poesia do meu olhar.

Que se dane a paz e a tranqüilidade que você tanto insiste em me devolver. Eu gosto mesmo é do turbilhão que você trouxe à minha vida em questionamentos e dúvidas sobre tudo aquilo que sempre foi tão certo pra mim, que me fizeram enxergar o mundo que nunca vi e a ter vontades que nunca me permiti.

Eu não quero me prender. Mas eu já me apeguei e não consigo ser indiferente à sua busca. Eu não consigo mais dormir. Eu penso em todas as possibilidades, eu penso no futuro e em um passado diferente do que foi. Eu lhe busco e me encontro.

Quero mesmo é que você volte e desfaça o que já arrumei e me cobre atitudes adultas como encarar os fatos de frente e respeitar os meus desejos. Quero que me diga quando vem e que não aceita não me rever. E não haverá Pessoa, Almodóvar ou Neruda que sacie o que ainda temos a viver.

Quero a permissão para reencontrar a sua risada, ouvir sua voz e rever seus olhos sobre mim enxergando tudo aquilo que ninguém mais é capaz de ver. Quero o seu carinho, o seu beijo, o seu cheiro e quero mais ainda a sua visão de mundo. Eu quero acreditar que sou aquilo que você vê em mim e ser feliz assim...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sobre sapos e formigas

De repente, eu me sinto culpada por não aceitar desaforos de um velho ranzinza e de mal com a vida. Sinto que a minha tolerância deveria ser infinita ao pensar que se trata apenas do início da minha carreira e que é normal colecionar sapos no estômago até se gerar um câncer ou se conseguir um emprego melhor.

Sinto que não estou cumprindo meu papel social ao não me manter trancada durante dez horas do meu dia em uma instituição privada trabalhando duro para que enriqueçam logo através da minha incessante produção.

Sinto que deixei de lado as minhas obrigações de profissional formada e cidadã adulta ao não conseguir pagar minhas contas e questionar o desrespeito ao piso salarial de minha classe. E não importa o quão qualificada eu seja porque eu estarei escondida o bastante atrás de muito trabalho para que seja possível enxergar novas possibilidades.

Não penso mais em contrariar pessoas tão superiores a mim em quesitos que, habitualmente, não adquirimos na faculdade, como arrogância, prepotência e amizades influentes. Não busco mais esse idealismo de sarjeta, livre de esquemas e fiel à ética e ao bom senso, pois o que resta a pessoas como eu é tão somente abaixar a cabeça e bater o cartão.

Sinto que, por ora, não há solução diferente de me conformar com a estúpida realidade e me submeter àquilo que não concordo, me juntando, enfim, à massa de operárias que dedicam total respeito à rainha.

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terça-feira, 3 de julho de 2007

Colegas

Sabia muito bem o que aqueles olhos no espelho queriam lhe dizer. E o que era confirmado pelas mãos trêmulas e pela falta de ar. Não restavam dúvidas de que sua presença a desconsertava e por mais que parecessem naturais as longas conversas diárias, ela enxergava claramente onde iriam chegar.

Sentia-se atraída por ele sim. Estava apaixonada. Adorava o seu dinamismo, a sua inteligência e o seu humor. Gostava mais ainda quando procurava a sua companhia, sem culpa e sem pudor.

Ela divagava sobre suas diferenças, sobre seus interesses e objetivos, quase sempre tão distintos. Queria saber mais sobre ele, sua vida, seu passado. Ele admirava a sua beleza, seu jeito empolgado e a sua inocência em não entender certas brincadeiras. Adorava quando o tocava, o elogiava e o solicitava com urgência. Coisas de menina novinha, sempre tão afobada!

Discutiam assuntos diversos. Restavam juntos sem nada dizer. Se riam e se desviavam. Os olhares os entregavam. Nada precisava ser dito, mesmo porque nada poderia ser feito. Permaneceriam assim. Até quando não sabiam.

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Nossa, esse é do fuuundo do baú!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Sonha comigo

Eu não quero medir forças com você. Não quero que as minhas vontades vençam as suas e, por mais que pareça, eu não quero mandar e ser obedecida. Quero que tenhamos sintonia para caminharmos lado a lado com os mesmos desejos e, até mesmo, com objetivos diferentes. Quero que você sonhe os meus sonhos e tenha vontade realizá-los junto a mim.

Eu não quero lhe deixar para trás e tampouco que siga sem mim. Já não consigo imaginar meu bem-estar sem a sua presença. Quero que possamos continuar a ser o que somos sem a interferência do destino, ou seja lá qual interferência venha ameaçar o que construímos pouco a pouco.

Eu quis ter você em minha vida e agora que o tenho não posso deixar que nada nos atrapalhe. E isso tem me dado um trabalho imenso. A minha necessidade de mover-me vem acoplada à necessidade de levar-lhe junto a mim. E, para isso, utilizo todo o discurso, charme e persuasão existentes em meu ser.

Quero ter objetivos de vida comuns aos seus e só este fato, por si só, já é de apavorar, vindo de alguém que, como eu, nunca foi de planejar futuros mais distantes do que uma semana... Pensar que essa pode não ser a sua vontade então, me faz querer sumir do mundo.

Eu quero que você venha comigo. Mesmo sabendo que você não vem, eu continuo querendo.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Bonina, marrom ou grená?


Já havia percebido que conviver com esses seres que não sabem diferenciar bonina de marrom, que fazem xixi em qualquer lugar e que falam o que querem e na hora que querem não seria fácil. Desde muito cedo notou que teria problemas com eles. Seu futuro não foi diferente das suas previsões.

Não havia um tipo que gostasse mais. Gostava de todos. E em cada época se apegava a um. Gostou dos mais novos e cheios de novidades. Dos mais velhos e mais contidos. Dos altos, baixos, morenos, loiros, magros, fortes, ... Gostou dos amigos de escola, colegas de trabalho, professores, desconhecidos, vizinhos, amigos dos amigos, primos das amigas ... Até que um dia se deu conta que não conseguia ficar por muito tempo com nenhum deles. Por mais lindos que fossem ou por mais educados e inteligentes que parecessem ser, se sentia sufocada, com seus passos vigiados e o que é pior: sempre se via atraída por outra pessoa fora do relacionamento.

Muitas vezes, preferiu ficar sozinha. Pensava em um modo de resolver aquilo que, para todos, era o seu problema. As pessoas lhe cobravam isso, embora parecesse algo impossível de se cumprir, não só para ela como para muita gente que conhecia. Ela sabia que seus vizinhos não eram fiéis às esposas, tampouco seus colegas de trabalho.

Ao seu redor, sempre ouviu longas histórias sobre traição e nunca foi capaz de trair. Nem mesmo completamente apaixonada por um homem comprometido conseguiu dar continuidade ao relacionamento. Chegou ao ponto de preocupar-se mais com a mulher que o esperava em casa, do que com a sua própria paixão. Quase enlouquecera. Vivia todos os dias em Crime e Castigo, Closer e Match Point. Teve sua paz roubada.

Não desistiu de tentar permanecer com alguém em tentativas que contrariavam a sua natureza. Se apaixonar era fácil, mas se manter apaixonada por um só, suportar a intimidade no dia-a-dia e resistir até o final era o grande desafio.