segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Futuro do Pretérito


Como as nuvens que permanecem presas entre as montanhas, enquanto a água corre solta entre as quedas, eu continuo te levando em meu pensamento.

A cada abalo sísmico que muda as trilhas pelas quais passaríamos, eu volto a pensar em como teria sido se você tivesse se importado mais.

Vejo o sol vermelho se afogar no oceano Pacifico e volto a sentir raiva de você.

Quando o deserto encontra o mar em falésias que um dia já foram o fundo do oceano, eu me dou conta do quanto errei.

domingo, 16 de agosto de 2020

Eu queria ter sido para você



Eu queria ter sido para você muito mais do que os versos que sublinhei em meus livros. Mas como lhe fazer entender, se não lemos as mesmas coisas? 

Eu queria ter sido para você aquele amor transmissível pelo ardor da febre em meio a alucinações, que fazem tudo fazer sentido. Mas como também ser sua cura, se você se nega a me ver como sou? 


Eu queria ter sido para você suficiente e genuína, mas sei o quanto nós mesmos nos esforçamos para caber onde não deveríamos estar. Muita coisa aconteceu desde quando nos conhecemos e eu me divido agora entre redenção, entendimento, raiva, revolta e compreensão. E enquanto eu não quero me deitar e sonhar com um amor destruído por filhos não nascidos, permaneço acordada a noite inteira.  


Eu queria ter sido para você motivo suficiente para se desligar de padrões e velhos paradigmas, mas tento aceitar agora seu tempo e seu espaço de autoconhecimento. 

Eu queria ter sido para você o maior motivo para ficar, mas você ficou e mesmo assim não foi por mim. 


Eu queria ter sido para você a casa bagunçada com as nossas roupas pelo chão, mas de repente nos perdemos com preocupações futuras e não vivemos o presente. 

Eu queria ter sido para você aquela dança que nunca deveríamos ter deixado para depois e que no fim nunca aconteceu.

sábado, 15 de agosto de 2020

Verão em Portugal

Queria o verão para não pentear o cabelo, usar roupa solta e respirar ar puro. Para caminhar no meio do mato, mergulhar na água gelada e sentir o sol reaquecer a pele. Ler aquele livro enquanto afunda o pé na areia da praia e escuta o barulho da natureza ao fundo.

Era um fim de tarde que não se acabava mais. Tarde que era noite e noite que ainda era dia. Praia que era rio e mata que era fogo. Parece que quando fomos colônia alteramos ordem e lógica de um bocado de coisa.


Tinha essa cidade de pedra com a rua tomada por duas facções rivais enquanto a missa não acabava.


Tinham flores na janela para nos lembrar que beleza importa sim e melhora o dia de quem a encontra.


Tinha vastidão no continente e tempos de paz.


Eu, você, nossos livros, sol e muita água. 


Foi sobre conhecer um território através dos olhos do outro, pelos seus afetos, lembranças, amores e sotaques.


E foi uma série de tesouros escondidos, de todos os tipos e por toda a parte. 


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sempre foi só eu



É sobre fugir dessa merda toda que é a minha vida insuportável e me refugiar em meio à natureza. Onde os pensamentos poderiam não conseguir chegar, mas onde insistem em me seguir. Onde o coração poderia escolher ficar em paz, mas também é onde os ecos conseguem me lembrar que não foi suficiente, que não foi dessa vez, que não adianta tentar, que é melhor largar a mão e ficar quietinha. Subir mais uma montanha enquanto a fé não volta. Tomar mais chá antes de continuar. Levar o tempo que for, como se não houvesse ninguém esperando.


Não há.

Nunca houve.

Nunca haverá.


Sou só eu.

Sempre foi.

O primeiro ano

Um primeiro ano longe de sentimentos verdadeiros, recíprocos e intensos. Em que a visão de mundo se baseia em uma observação não participante. Distante, parcial, depressiva e negativa. Em que as poucas pessoas ao redor não são capazes de representar companhia, mas significam apenas meros passageiros de um cenário bucólico, invernal e, mais que cinza, branco. Ausente de cor, vida ou genuína diversão. 

Os momentos em companhia são regados à base de tudo que possa transportar a universos paralelos, em que essa situação já tenha passado e não exista mais. Exageros entre horas passadas longe de casa, mililitros de álcool ingeridos ou conversas sem sentido iniciadas somente para passar o tempo. Com pessoas que não se tem um afeto, que não representam nada e que nem sequer entendem o que digo ou penso. 

Tempo que não passa. Não passa. Não passa. 

Após um ano e tudo permanece na mesma. O mesmo sentimento de não pertencimento. A mesma língua falada no tempo errado. Os mesmos espaços sem entendimentos, sem respostas, sem sentido. Sem sentir. 

A vida tocada como se eu mesma não estivesse presente. Como se o meu espaço não fosse esse, mas nem mesmo outro. Nem aquele de antes, nem esse de agora. E tampouco aquele futuro. Como se o meu futuro não existisse, como se o não pertencimento fosse eterno. 

Continuo sem saber do que vocês riem. Continuo sem saber como vocês cresceram. Continuo sem entender como vivem. E então mais uma dose mais forte, mais concentrada e mais intensa. Mais uma conversa com quem não devia, com quem não queria, mas com quem tinha presente. 

Tempo que passa. Passa. Passa. 

Inverno que não passa. Línguas que se misturam, se fundem, se completam nessa ausência que não passa até a próxima oportunidade de retorno. Analisando comportamentos em situações em que ninguém nos pode ver. Exatamente igual. 

Ma come sei noiosa.

domingo, 4 de setembro de 2016

Sem ela

Não é questão de estar ou pertencer. Mas é que por muito tempo só me incomodava. Até que a falta veio pra ensinar o verdadeiro valor. Nem mais, nem menos do que realmente vale. Cheia de defeitos, mas com algumas qualidades consideráveis, tornou-se então aceitável. Sem garantias, por se tratar de um sentimento mutável, de uma dualidade complexa e contendo memórias e referências extremamente sensíveis. Pode ser temporário, mas internamente já deixou marcas profundas. Aquela espécie de amor maduro, consciente das limitações e defeitos, mas que não deixa de se revoltar clamando sempre por evolução, empenho, reciprocidade, dedicação e melhoria.

domingo, 31 de julho de 2016

Do que não foi

Foram as mensagens monossilábicas, os convites não feitos, a falta de preocupação genuína, a não inclusão no que é bom ou ruim, a não divisão das tarefas. Foi ser tratada como um passatempo, foi a dedicação do tempo morto, a demarcação de um território neutro e distante. Foram os silêncios que perfuraram, perduraram e predominaram. Foi o que não foi dito, mas, sobretudo, o que não foi sentido. Foi o espaço não preenchido, a mão não estendida, o planejamento não feito. Foi não me ver no seu futuro, foi incômodo, ansiedade e desconforto. Foi não fazer parte da sua vida. Foi esse pedaço incompleto que me foi dedicado, oferecido como resto. Foi aquela promessa não cumprida. Foi por procurar e não me achar. Foi por lhe esperar e não chegar. Foi por aquele pequeno cuidado que faltou. Uma, duas ou três frases a mais para mostrar que se importava, que se preocupava ou que gostava. Nada disso veio e, se não veio espontâneo, eu já não posso mais esperar pelo que, certamente, não virá.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Nunca me passou



Dos livros que li e dos amores que vivi eu pouco lhe falei. Amar você era como ler Garcia Marquez. Eu não sabia se o calor que eu sentia ao olhar seus olhos tão pequenininhos era amor ou apenas malária. Febre, suor e confusão mental a cada vez que você se aproximava. Crises de ansiedade a cada vez que você partia. O que eu tinha nenhum doutor foi capaz de diagnosticar e, embora todos os exames tenham sido negativos, você nunca me passou.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Em pedaços

Você preparou a casa toda. Trocou o carro esporte por um maior. Me falou de família, amigos e papéis. Preparou tudo para me receber. Eu não precisava de nada disso. Eu apenas queria precisar. Seus afetos, suas paisagens, suas palavras, suas imagens, seus valores, suas impressões. Não sei explicar bem porque ainda não foi digerido. Veja bem: mesmo depois de tanto tempo, ainda não entendi quando foi que nasceu a sua desconfiança, o seu ciúme, a sua possessividade e a sua ira. Eu não entendo como alguém que deu tanto possa se tornar tão egoísta. Eu não entendo de onde veio o alto tom da sua voz ou a minha incontrolável vontade de ir embora. Aversão a tudo que pensávamos estar construindo juntos. Não sei bem quando comecei a fazer as malas. Mas garanto que cheguei até aqui com a bagagem mais positiva que pude carregar. E, mesmo assim, em pedaços.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Carta a um [des]amor

Meu querido desamor,

Foi a liberdade que você me concedeu, que me fez ir além. Para descobrir quem eu era, o que queria e do que seria capaz, precisei me desvincular de tudo aquilo que era tão certo pra mim.
O nosso amor nunca deixou de existir, se transformou nesse querer bem infinito, nesse sentimento de referência para todas as outras paixões que surgiriam e nessa total incapacidade de encontrar algo parecido nessa Terra.
Nós éramos únicos e, juntos, insuperáveis. No coração ficou a lembrança da generosidade, da cumplicidade e da sintonia que nunca nos faltou. Ficou a gratidão pelo que me ensinou e por tudo que vivemos juntos. Hoje só posso desejar que você encontre amor por onde for.

Com carinho, 
                                        C.


Cristina,

alça o seu voo, liberte-se dessas amarras e desconstrói o seu ser. Vai que, no fundo, você nunca precisou de mim. Vai descobrir o que eu sempre lhe disse: você é bem capaz sozinha. Vai e me deixa as boas lembranças do que vivemos, os lugares que frequentamos e todos os amigos em comum que insistem em me pedir notícias suas. Vai e me deixa com a sua falta, o som da sua risada, os planos que fizemos, seus presentes pela casa, suas fotos na parede e suas ligações inesperadas. Vai viver o sonho que é só seu. Vai que, daqui em diante, eu já não consigo ser mais seu companheiro. Nossas vidas vão seguir rumos diferentes e eu não vou mais me fazer presente. Ainda assim, conte sempre comigo para o que precisar. 

Com amor,
D.


[Cartas produzidas no curso Go, Writers para amadores. Cartas de amor e desamorda querida Cris Lisboa, que me devolveu animo e inspiração para continuar escrevendo].