Abri mais um livro do Pessoa. Parece
que só ele fala a minha língua. Fato é que meses atrás ele me chamou pra sair,
depois voltou atrás. "Sabe, eu ainda tô com o coração partido".
"Quer saber, eu também". Eram tempos que até acordar doía. Não sou
dessas que recuam diante de um novo desafio, mas me senti aliviada. Que
preguiça começar de novo. Que vontade de desacreditar. Mas, no fundo, eu sei
que por mais tombos que leve, eu continuo acreditando no amor. Por enquanto
tudo bem continuar sem depilar, sem hora pra voltar, sem ninguém a me esperar.
Finalmente desfiz completamente as malas. Sou a única criatura que viaja tanto, mas não consegue fazer nem desfazer as malas por completo. (E era justo a hora de fazê-las de novo). Estão sempre aqui no chão do quarto, caso eu resolva fugir novamente.
Dessa vez, fugi correndo como nunca. Deixei meu mundo pra trás. Achados, carreira, paisagens e amizades. Na mala desfeita estava aquele ursinho que você me deu em Ipanema. Quis odiá-lo, quis odiar-me, quis me arrepender de ter investido tudo em você. Não consigo.
Bom sentar aqui e me sentir em
companhia. Esse amor próprio, que você também chama de egoísmo, parece ter se
tornado inabalável. E disso eu me orgulho muito.
Fale o que quiser, mas eu tenho me lembrado somente do lado bom. De mim e do que aprendi.
Fale o que quiser, mas eu tenho me lembrado somente do lado bom. De mim e do que aprendi.
Nada nessa bagagem deixada pra trás valeria tanto, se eu tivesse que abdicar a mim mesma. Depois de um tempo, aprendi que posso perder tudo quantas vezes forem. Eu sempre vou ter forças pra começar de novo e cada vez melhor.
Lembro-me bem do dia em que disse que eu me daria bem onde estivesse: eu concordei. É exatamente assim que me sinto. Vai ser bom. Onde quer que seja. Quando for.
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