quarta-feira, 30 de maio de 2007

Caixa de sapatos




Voltava sempre à casa com a sensação de não ter feito o que queria. Anotava os seus desejos não realizados em pequenos pedaços de papéis e os guardava em uma caixa de sapatos.

Rapidamente, viu a caixa se encher. Eram beijos não dados, carinhos não demonstrados, palavras não ditas, mágoas guardadas e grosserias não retribuídas. Cultivava cada um daqueles pedaços de papéis, quase sempre, pelos mesmos motivos: orgulho, charme e convenções socias.

Soube que não poderia mais conviver com aquela caixa quando percebeu que aquilo tudo fazia parte do que seria: uma pessoa triste e amarga. E para se livrar daquele peso teria de priorizar as suas vontades.

Colocou-se a ler cada uma das ações que não realizou. Ordenou-as de acordo com sua importância. Sabia que as coisas que mais deveria ter feito eram diretamente proporcionais às horas de sono perdidas. Jurou a si mesma que não mais voltaria à casa sem que resolvesse as suas pendências e pudesse dormir em paz.

Começou aos poucos, apenas não deixando que outras pessoas lhe magoassem. Com o tempo, ganhou forças para dar respostas imediatas e aprendeu a reconhecer o que queria para si a tempo de não perder as oportunidades que a vida lhe oferecia.

Rasgava cada um daqueles papéis à medida que realizava os seus desejos. Soube aceitar aqueles que não poderiam mais se concretizar. Deixou que o vento os levasse embora e o viu tirar-lhe o peso armazenado. Assim, conheceu o respeito próprio e as noites bem dormidas lhe fizeram companhia.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O último dia


Todos puderam notar em meu semblante de derrota a raiva que senti assistindo ao seu ciúme e preocupação com ela. Certamente, esses representam os piores momentos da minha existência. Você não me enxerga, não me toca, não me beija e você jamais sentiria ciúmes de mim. E eu vou me tornando tão mulherzinha, coitadinha e feinha que até entendo o seu comportamento.

De quatro, seguindo todos os passos que ela dá. Sem dar a mínima para mim. E aí eu me odeio tanto por ter esticado o cabelo, já desalinhado, maquiado os olhos, que brevemente irão se borrar, ter tirado as cutículas e ter me pintado inteira dentro de um vestido caro para estar à sua frente que penso mil vezes se não seria o caso de chamar um táxi e me esconder para sempre.

Mas você ainda nem notou os seus amigos gatos me cantando. Você nem percebeu que eles me viram, me tocaram, tentaram me beijar e disseram que você não me merece. Eu devo estar mesmo tão louca, vulnerável e pobrezinha que até desconhecidos já sabem o que dizer para me convencer que este foi o último dia me subordinando a tão pouco.

E eu posso estar descabelada, desfigurada e suada, mas já que desci até aqui, vou dizer que você não presta, que eu prefiro seus amigos gatos, que eu vou vomitar mais um pouco enquanto você se rasteja por ela e quando eu voltar, aliviada e cansada, vou desejar que tudo isso tenha acabado. Vou topar uma injeção de auto-estima com seus amigos gatos, vou me permitir te odiar, te magoar, te amar e te perdoar mais uma vez.

Eu vou querer te esquecer para quando você perceber que ela dá para todo mundo, além de você, eu estar tão ocupada em minha vida, e não mais vivendo a sua, que não vou nem perceber os seus chamados e pedidos de desculpas.

E, enquanto você segue os passos de uma qualquer, eu aceito me consolar no colo de seus amigos gatos, muito gatos. Vou tomar mais uma, dançar a nossa música e encerrar a noite com a certeza da companhia do travesseiro encharcado e brindar, mais uma vez por você, todo o canal lacrimal, a pressão cerebral e a ressaca moral! Por você, a minha decadência, a minha demência e incompetência, derrotada em mais um último dia! Tim tim!

Última gaveta


Abriu a última gaveta e encontrou aquela carta: era a de que mais gostava. Ele havia lhe escrito em seu aniversário e, dessa vez, não usava clichês nem mesmo desejava os votos comuns nesta época. A carta falava da história e do sentimento puro que existia entre os dois. E desejava que tudo continuasse assim como era.

Sabia bem o que estava vivendo e não era a primeira vez em que maximizavam problemas e minimizavam sentimentos. Mas gostava de recorrer a ela nestes momentos críticos. E não gostava de pensar o quão cabeça-dura ele poderia se tornar em algumas situações. Dava-lhe a sensação que seu orgulho era maior que o amor a ela dedicado. Preferia lembrar dos momentos de extremo carinho que viveram, jovens, quando o objetivo comum era somente curtir o presente que a vida lhes enviou: um sentimento dos mais bonitos já vistos por aí.

Não sabia mais se gostava realmente de ler aquelas palavras ou se era uma espécie de tortura a que se propunha para aprofundar-se no sofrimento. Se fosse o fim, preferia vivê-lo logo e se não fosse, não havia necessidade de tamanho silêncio. Havia perdido a noção de quando começaram a deixar resoluções para depois ou se algum dia já havia sido diferente. “Deve ser mesmo isso que acontece com os casamentos” – pensara.

Seguiu buscando soluções práticas para problemas, quase sempre, tão subjetivos. Tentou não imaginar o que ele, agora distante, pensava ou fazia. Lembrou-se do tempo de solteira em que prometera focar-se apenas em questões determinantes ao seu bem-estar e resolveu relaxar. No entanto, sabia que muita coisa havia mudado em todos estes anos... Não poderia ser egoísta e pensar apenas em suas inseguranças de mulherzinha. Havia toda uma vida construída prestes a se desmoronar. Havia o sentimento das crianças, a opinião da família, a divisão de bens e tantas incertezas que permeavam qualquer decisão que fosse tomada. Havia uma espécie de dívida com todos aqueles que a rodeavam e, no fundo, sabia bem que a maior delas era consigo mesma.

A velha e a moça

Ando devagar para não forçar o joelho já desgastado. No consultório, o médico sentenciou: “o seu caso é sedentarismo”. Mas veja como é complicado, na minha idade, praticar algum tipo de atividade física, meu filho...

Para as dores no ombro, provocadas pela bolsa sempre tão cheia de remédios, casaquinho, sombrinha e outras tantas coisinhas que carrego sempre comigo, ele receitou um remedinho bom. A dor passou na hora! Mas segui marcando as minhas consultas, pois gosto de acompanhar de perto os lançamentos da indústria farmacêutica para dores nas articulações, sinusite, rinite alérgica, bronquite e todos os males provocados por essa vida doida que levamos hoje.

Porque no meu tempo, filho, a cidade não era poluída assim não e, ao pegar a condução, os jovens cediam o lugar aos mais velhos. Hoje não, eles parecem não perceber o meu cansaço, nem se oferecem para levar o livro que sempre tenho em mãos. Essa juventude anda com a cabeça nas nuvens! O que eu gosto mesmo é de passear de carro com os parentes, conforto maior não há!

Mas o médico insiste que eu preciso andar... E lá no hospital, onde já conheço todo mundo, eles concordaram. Disseram que é bom para essas dores que eu sinto nas costas e nos ombros. Não entendem que tudo isso é cansaço e que, na minha idade, é uma canseira da vida. De todo o peso carregado nos ombros por todos esses anos, filho...

O farmacêutico me convenceu que esse remedinho vai me fazer dormir melhor, além de ativar a circulação. Assim, a queimação nas pernas não vai mais me incomodar à noite. Quase todo o meu suado dinheirinho fica lá na farmácia mesmo... Tudo para chegar ao alto dos meus 24 anos parecendo um pouquinho mais jovem!