terça-feira, 26 de novembro de 2013

No meu esconderijo

Eu não passo de uma menininha medrosa trancada no porão de casa. Eu não passo do mais completo clichê. Durante horas escutando os passos do ladrão ou adivinhando o momento exato em que o monstro marrom sai do guarda-roupas.
Os mesmos medos conservados há anos, a mesma incapacidade em lidar com a realidade e a mesma inércia em voltar sempre para o mesmo esconderijo.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Virás comigo

Você me perguntou se foi um bom namorado e eu tirei sarro. Fiz você sorrir e apontei como defeitos as características que mais gostava em você.
Você não foi um bom namorado porque bebia muita Coca-Cola, porque escondia chocolate debaixo do travesseiro, porque engordou, porque sempre foi muito independente, porque dava atenção para todo mundo, porque é cheio de amigos, porque sempre tinha mil compromissos em família, porque jogava a pelada da terça e frequentava o estádio aos domingos.

Você foi simplesmente o namorado mais incrível que eu já tive.
Mas isso eu não disse.

Você foi aquele que me fez dobrar a orelha do Neruda bem na página que diz:
“Virás comigo”.
Mas isso eu não disse.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Para cada tristeza, uma doença


Me irrita ser tão previsível. Para cada tristeza, uma doença. Para cada não, um sintoma. Para cada insônia, um remédio contra a dor. Eu o tomo mesmo sabendo que essa dor não vai passar. Mesmo sabendo que eu preciso deixar de ser tão covarde e medrosa e que, para isso, não há comprimido ou injeção capaz de fazer o que só pode ser feito por mim. 

Eu tenho febre há três dias. Eu me limito, me escondo, podo as minhas raízes. Eu não quero sair do lugar que eu nunca quis estar. Eu sonho com novas possibilidades, mas não consigo ir buscá-las. 

Eu tenho saudade dos meus amigos antes mesmo de tê-los deixado. Eu quero que a minha despedida aconteça todos os dias só para ser o centro das atenções. Eu faço charme, chantagem e pirraça só para que eles apareçam. 

Você quer que eu lhe diga quem sou, mas eu só sei dizer o que eu quero ser. Eu quero fazer todas as coisas que gosto ao mesmo tempo. Eu não consigo me decidir frente a caminhos que finjo não existirem. Eu ignoro a sorte, ignoro as possibilidades e não tomo uma atitude simplesmente porque não tenho garantias. E, por mais que o presente seja medíocre, ao menos ele eu conheço bem. 

Eu passo o dia dopada. Eu tomo mais remédios e ainda sinto dor. Eu sei o que devo fazer, mas morro de preguiça de sofrer. A vida me mostrou seu lado bom para que eu não me arriscasse mais em estradas perigosas, em aventuras infundadas e em noites bem dormidas. 

Eu tenho alucinações, sonho que tudo mudou e se resolveu por si só. Eu não me sinto bem, durmo mais um pouco e acordo pior. Eu jogo no lixo as minhas vontades, eu deixo pra depois os meus desejos e me contento com o que vem até mim. Eu não quero mais gastar energias e mesmo estando em férias há meses, ainda assim me sinto cansada. 

Eu penso em ter obrigações, chego a planejar uma rotina organizada e logo quero descansar novamente. Eu não consigo me enquadrar. O que todos fazem tão facilmente não chega a ser aceitável para mim. A minha inquietação não vai embora mesmo após ter experimentado todas as alternativas. Eu vou de um extremo ao outro e não consigo voltar. Eu sou compulsiva por trabalho, por simples prazeres e pelo ócio criativo, mas não suporto ser analisada. Ao mesmo tempo em que busco a visibilidade, quero que ninguém preste atenção no que faço. Eu enfeito a realidade para satisfazer a minha vaidade. 

Eu lhe convido a me visitar, mas mudo de endereço antes de você chegar. Eu quero paz e agito em uma só atmosfera. Eu quero o tédio e o glamour. Eu quero o amor e o ódio. Eu sou brava, mas esqueço de me impor. Eu exagero no carinho, exagero na franqueza e exagero, principalmente, comigo mesma. Eu me ocupo para ter descanso de mim. A minha cabeça sofre a pressão que o meu corpo responde. Eu fico de cama só até quando decido me levantar e tudo mudar. 


(Texto originalmente publicado em meu antigo blog em julho de 2007, quando o redigi)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A voz

Queria ser melhor. Queria ser melhor. Queria ser melhor. E é isso que me arruina. É isso que me deixa em pedaços. É isso que me enfraquece e me faz perder o caminho. Se eu pudesse somente existir, se eu pudesse somente ser eu mesma, sem máscaras, sem convenções, sem ter de agradar ninguém mais além de mim mesma. Se eu pudesse fazer e bancar somente aquilo que me satisfaz interiormente. 

E daí que ouvi a voz. Eu posso. 
Você se lembra? 

Você já foi, em tantos momentos da sua vida, responsável pela sua própria felicidade. Você se livrou das amarras, das neuroses, da insônia e simplesmente viveu. Em nenhum momento foi fácil e você teve que assumir tantas responsabilidades, mas entendeu que, com medo ou sem ele, a única alternativa que aceitaria seria seguir adiante. Então ficou mais leve, deixando o medo ali para seguir caminhada. Eu só queria poder existir de novo. Eu só queria poder ser leve assim mais uma vez. Eu só queria poder realmente ouvir essa voz.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Para seguir em frente, enfim

Medos, ansiedades e arrependimentos. Todos eles diante de mim nesse momento esperando que eu decida o que fazer, que eu entenda o que realmente quero. Sob tantos olhares tudo se torna mais difícil, mais pesado e mais duro. Eu quero enfrentar o que tiver que ser mas, ao mesmo tempo, levo comigo o peso das decisões que envolvem tantos corações. Encontrar o equilíbrio entre me colocar em primeiro lugar sem me isolar do mundo real não tem sido fácil. Ser completamente egoísta seria a alternativa mais confortável, mas eu preciso me perdoar e entender que nada dura para sempre. Tudo bem em ter um coração partido a essa altura da vida. Quer dizer que eu tentei com todas as minhas forças e, se chegou ao fim, foi lindo mesmo assim. Eu me fechei durante tanto tempo para viver essa dor, mas não me parece uma boa ideia colecionar tanto sofrimento. Talvez tenha chegado finalmente a hora de ir ver o que tem lá fora.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O máximo que eu pude

Por mais que o tempo passe, eu não consigo me desvincular das pessoas que passaram pela minha vida. Ha dias tenho em mente o que você me falou. “Espero por qualquer virada. Alguma coisa que me faça sentir vivo, mas você sabe, não é fácil”.
Sei bem que, quando passei por ai, tirei varias coisas do lugar e já era hora de acabar com toda a sua ordem. E lamento não poder continuar o desconserto.
Grande parte do que deve ser feito, só pode ser feito por você mesmo e eu realmente espero ter ajudado. A lhe fazer refletir, a sair da sua zona de conforto, a balançar o seu coração e a lhe fazer enxergar tudo de uma maneira mais leve. Eu estava simplesmente na minha melhor fase, vivendo a minha mais completa liberdade e ter estado ao seu lado só contribuiu para que eu me sentisse melhor. Queria dividir com você todo o meu bem-estar, pois sabia que, mais do que precisar, você merecia.
Nos identificamos em meio a tanto infortúnio, a tanta frivolidade e a tamanha desconexão. Nos enxergamos na multidão e nos encontramos em meio ao caos. Eu realmente precisava estar com você por qualquer instante, qualquer segundo, mesmo que para somente continuar ouvindo a sua voz.
Mas foi mais. Fui descoberta por você, sempre tão atento às minhas palavras. Fui surpreendida pelas suas historias. Ganhei sua confiança, essa mesma, tão rara e preciosa. E fui agraciada pelo seu querer. Eu não podia ir embora sem antes bagunçar um pouco a sua vida. A sua mente. Era só isso que eu queria quando me aproximei e quando insisti tanto, que fosse inesquecível. Que existisse. Que fossemos, ao menos por um dia, nós dois.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Nesse quarto

Estagnaram-se ar e pensamentos nesse quarto de maneira que não podemos mais permanecer aqui fechados sem a corrente que renova folego e vísceras a cada manhã.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Virando bicho

Eu me encontrava apatica, fria e nao reagia nem mesmo aos mais perversos acontecimentos ocorridos bem diante dos meus olhos. Entendi, enfim, quando me disseram: "aqui a gente vai virando bicho". E era isso: faltava amor, carinho, beijo, abraço, cuidado e calor humano. Faltava vida. Mas seguiamos todos juntos naquele barco levando conosco a mesma epidemia rumo a uma direçao que nao poderia nunca mais ser retomada.

Você

Quanto mais eu lhe conheço, mais me dou conta que eu esperava por você. Era você. É você. Só você. As nossas vidas tinham que se unir. E veja bem em que modo estranho (e perfeito) elas se cruzaram. Enquanto você brincava sozinho ai, eu também brincava sozinha aqui. Enquanto você mergulhava no lago, eu mergulhava na cachoeira. Enquanto você lia mil livros, eu me apaixonava por cada historia que havia em mãos. Enquanto você cortava a laranja daquele jeito, ou comia peito de peru com ricota, ou fazia vitamina de banana com morango, eu fazia tudo igual do outro lado do mundo. Quando nós dançamos juntos, você sentia o meu perfume de um lado, enquanto eu sentia o seu do outro. Enquanto você falava, desculpa, mas eu não tinha a menor ideia do que você estivesse dizendo. Estava muito ocupada entre barba, olhos, sorrisos e gestos. Mas eu concordava e concordo ainda hoje. E me parece que para você será sempre assim. Para você, a minha resposta será sempre sim. Somos duas partes diferentes de uma mesma coisa. Somos quintas-feiras iguais de um mesmo ano em meses diversos. Somos a mesma coisa em hemisférios invertidos. Somos peixes e gêmeos em continentes diferentes. Somos o norte e o sul do mundo. Somos dois idiomas que se entendem de alguma maneira. Somos, finalmente, eu e você.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

No outono

O perfume de jasmim invade o meu quarto essa noite mesmo tendo as janelas fechadas e sendo outono. E isso é algo que eu gostaria de dividir com você. Como o sabor da torta de chocolate com coco que comi essa tarde no meu café preferido nessa cidade. Como a alegria de ter encontrado o ônibus que me esperava na parada do centro e o inacreditável fato de não ter pego transito em uma sexta-feira à noite nessa capital especializada em oferecer momentos desperdiçados e horas mortas, quando tudo aquilo que você mais quer é voltar para casa e ver TV no sofá. Queria viver cada um desses momentos junto a você. Cada besteira, cada frivolidade que, eu sei bem, vividas ao seu lado teriam um outro significado. Eu já sei bem que não irei suportar por muito a distancia. Pergunto-me a cada dia o que ainda faço aqui e não vejo a hora de descobrir como é uma vida vivida junto a você.